Um estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) revelou que a estimulação cerebral não invasiva, associada a oficinas de educação nutricional, reduz significativamente o desejo compulsivo por comida em mulheres com obesidade. O teste durou cinco dias e teve seus resultados publicados na revista científica Physiology & Behavior.
A obesidade representa um grave desafio de saúde pública, com maior incidência entre as mulheres. Projeções do World Obesity Atlas apontam que centenas de milhões de pessoas no mundo viverão com a doença até 2030.
Além dos prejuízos metabólicos, a enfermidade afeta áreas do cérebro responsáveis pelo controle cognitivo. A pesquisa focou no córtex pré-frontal dorsolateral, região envolvida na autorregulação que costuma ter atividade reduzida em pessoas com a condição.
A técnica utilizada foi a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS), aplicação indolor de baixa intensidade no couro cabeludo, desenvolvida com apoio da Fapesp.
Metodologia do experimento
O ensaio avaliou 11 mulheres de 20 a 40 anos com obesidade grau 1 ou 2. Elas passaram por 15 aplicações de 20 minutos divididas em cinco dias consecutivos, enquanto um grupo-controle recebeu uma aplicação simulada.
Nos intervalos, as voluntárias participavam de oficinas nutricionais sobre fome emocional, saciedade e escolha de alimentos. A intenção foi associar a neuromodulação à reeducação do comportamento alimentar.
As participantes foram reavaliadas até seis meses após o procedimento para acompanhamento do apetite e medidas corporais.
“A estimulação ativa reduziu o desejo por comida, tanto logo após a intervenção quanto a longo prazo”, explicou a nutricionista Marina Rodrigues Giuliani, autora do artigo. O benefício ocorreu sem provocar mudanças diretas no peso corporal.
A manutenção do peso já era prevista pelos cientistas, visto que o protocolo durou poucos dias e não impôs dieta hipocalórica. O foco do estudo esteve centrado no aspecto neurocomportamental.
Ambos os grupos apresentaram melhora na relação consciente com a comida, o que demonstrou o impacto positivo gerado pelas oficinas educativas.
Ferramenta auxiliar no tratamento
Embora se trate de um estudo-piloto, os dados trazem perspectivas promissoras. A professora Vivian Marques Miguel Suen, orientadora do trabalho, reforça que a intervenção pode atuar como aliada a tratamentos já existentes.
A próxima etapa dos pesquisadores consiste em testar a estimulação magnética em pacientes que enfrentam obesidade e compulsão alimentar.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se