Um levantamento inédito publicado pelas ONGs Terra de Direitos e Justiça Global revelou que o Brasil registrou 354 casos de violência política entre outubro de 2024 e agosto de 2026, consolidando o período pré-eleitoral mais grave da última década devido ao aumento de ataques contra representantes públicos.
De acordo com Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da ONG Terra de Direitos, o cenário representa uma séria ameaça à integridade física dos ocupantes de cargos públicos e compromete diretamente a estabilidade das instituições e do regime democrático brasileiro.
Apesar de ocupar apenas cerca de 18% das cadeiras legislativas no país, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres responderam por 50,6% do total das agressões catalogadas durante o levantamento.
O perfil dos ataques varia conforme o gênero. Enquanto a violência física (incluindo atentados e homicídios) teve homens como alvo em 77,2% dos episódios, a violência simbólica (como ameaças e ofensas) afetou majoritariamente as mulheres em 58,3% das ocorrências.
Além disso, a totalidade das 31 ameaças de violência sexual e dos 67 episódios com ofensas à aparência ou teor sexual foram direcionados exclusivamente contra parlamentares e candidatas do sexo feminino.
A pesquisadora Franciele Petry destaca que essas práticas intimidam o surgimento de novas lideranças e impedem a representatividade plena de grupos marginalizados, incluindo mulheres, pessoas negras e a comunidade LGBTQIAP+ nos espaços decisórios.
Impacto da violência racial
A questão racial também se destacou no estudo: uma em cada três mulheres agredidas era preta. Ao todo, 64 dos 84 registros de violência contra pessoas pretas tiveram mulheres como alvo, dentre as quais onze eram mulheres trans ou travestis.
O relatório identificou ainda que quatro ameaças com teor abertamente neonazista ou supremacista miraram prefeitas e vereadoras negras em diferentes regiões do país, como Professora Nilda (RN), Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE).
Concentração nos municípios e impunidade
A esfera municipal concentrou a maior fatia dos abusos: 63% das agressões ocorreram contra prefeitos e vereadores. Além disso, 24 dos 28 ataques com intenção de matar foram registrados nos municípios do país.
A diretora executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho, alerta para a participação de agentes estatais e policiais em 29,9% dos atos, além de 18,1% dos agressores possuírem mandatos eletivos ou cargos públicos no momento dos fatos.
Embora 84,5% dos episódios tenham sido objeto de denúncias formais, a impunidade predomina. Apenas 13% dos casos possuem investigação judicial em andamento e somente 2,5% resultaram em sanções efetivas aos autores dos crimes.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se